METODOLOGIA DO MEMORIAL DA COVID-19

Nossa metodologia

O Memorial funciona como um repositório e um portal que reúne, preserva e dá acesso a informações, dados, exposições e documentos em diversos formatos, como textos, áudios, vídeos, fotografias e produções artísticas. O acervo, constituído por projetos comunitários, institucionais e acadêmicos recebe tratamento arquivístico, em conformidade com parâmetros e legislação. Para tanto, os esforços foram direcionados para a construção de um Repositório Digital Confiável de Arquivo (RDC-arq); o delineamento de uma política de preservação digital de longo prazo; e o desenvolvimento de um Portal com o objetivo de tornar o Memória um fundo crowdsourcing, ou seja, disponibilizar uma plataforma para que doadores possam por conta própria preservar suas memória com infraestrutura adequada para acesso público. 

O aumento da demanda da sociedade pela produção e consumo de memória, aliado ao crescimento das alternativas de acesso à informação, como celulares, redes sociais e serviços de armazenamento, desdobrou-se em iniciativas pessoais e comunitárias de construção de memórias que produziram coleções de tipologias muito diversas: os chamados arquivos informais. Recebem essa classificação por não serem fruto de demandas ou padrões institucionais. Eles nos provocam a refletir sobre uma questão central:

Como salvaguardar, de maneira democrática, legal, ética e cidadã, a memória informal produzida em um ambiente tão efêmero quanto o digital, de forma a garantir às gerações futuras o direito de acesso e custódia da experiência social que vivemos e viveremos?

Como preservar a memória e garantir o acesso às experiências que vivemos?

Inovador nesse quesito, o Memorial Digital da Pandemia de COVID-19 desenvolveu uma metodologia própria, resultante do trabalho de muitas mãos. Esse trabalho começou ainda em 2020, com a fundação do Centro de Humanidades Digitais no Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Unicamp (CHD). Sob a liderança de Thiago Lima Nicodemo, o CHD concebeu um grupo de pesquisa no CNPq, projetos colaborativos como o Coronarquivo e pesquisas como a tese de Ian Marino, pioneira no estudo da memória digital da COVID-19. Esses projetos formaram as bases da metodologia que permitiu a construção do Memorial Digital da Pandemia de COVID-19 no Brasil, que conta com a atuação de Nicodemo, Marino e de uma equipe interdisciplinar de pesquisadoras e pesquisadores vinculados ao CHD que trabalham em parceria com as equipes do Centro Cultural do Ministério da Saúde (CCMS) e da Bireme/OPAS para a estruturação do Memorial. 


Fotografia em preto e branco de um evento institucional. No palco, um grupo de pessoas está de pé atrás de uma mesa, diante de um painel com o texto “Memorial Pandemia COVID-19”. Em primeiro plano, há uma plateia vista de costas. Elementos gráficos em vermelho, como pequenos “X” e traços pontilhados, aparecem sobrepostos nas laterais da imagem, criando contraste com a cena.

Identificando memórias

O primeiro passo para a criação do Memorial Digital da Pandemia de COVID-19 foi a identificação dos projetos que, desde o início da pandemia, passaram a compor coleções com diferentes tipos de registros que documentaram o período em tempo real. Essa etapa de identificação foi realizada colaborativamente pelo projeto Coronarquivo, criado em 2020 por pesquisadores do Centro de Humanidades Digitais-Unicamp sob a coordenação de Thiago Lima Nicodemo. Desde então, o Coronarquivo monitorou 120 projetos de memória da pandemia de COVID-19 na América Latina; Trata-se de comunidades, no sentido amplo do termo, que entenderam que o momento importante que vivíamos deveria ser registrado.

Dialogando com os Projetos

Identificados os projetos de memória, o Memorial Digital da Pandemia de COVID-19 passou a contatar seus criadores para convidá-los a compor um acervo para tratamento técnico, preservação e acesso, partindo do princípio de que todas as memórias da pandemia são dignas de preservação. Iniciamos o projeto priorizando iniciativas que representassem a diversidade de grupos sociais, tipos de documentos e regiões, bem como a urgência de preservação de registros que estivessem sob risco de se perderem.

O diálogo estabelecido, em todos os casos, vem sendo realizado de forma respeitosa: afinal de contas, se o Memorial Digital da Pandemia de COVID-19 oferece aos projetos a infraestrutura necessária para a preservação digital, os protagonistas de nosso acervo são as pessoas que desde 2020 vêm lutando para documentar a pandemia à sua maneira. O Memorial Digital da Pandemia de COVID-19 não coleta nenhuma coleção sem a participação voluntária e ativa de seus criadores — elemento central da nossa metodologia

Cooperação e tratamento técnico 

Após os acordos de cooperação, iniciam-se os trabalhos de preparação dos documentos para a coleta e tratamento técnico. A documentação de cada projeto é identificada e, respeitando as especificidades dos documentos produzidos, desenvolvemos soluções de recolhimento para que os projetos se configurem em coleções documentais para compor o acervo do Memorial Digital da Pandemia de COVID-19. Esse trabalho é feito em parceria ativa com os criadores dos projetos de memória, com muito diálogo para mapear os seus contextos de produção e difusão dos documentos e para estabelecer parâmetros legais e éticos de coleta, qualificação das coleções e arquivamento. 

Esta etapa é fundamental para a concepção de preservação adotada, pois garante a manutenção do contexto de produção dos documentos, da proveniência, da qualidade informacional e do legado de cada projeto original. O processo de coleta e tratamento técnico é cuidadoso, pois deve assegurar a integridade e a autenticidade dos documentos, bem como a participação dos produtores das coleções, condição essencial para que o Memorial Digital da Pandemia de COVID-19 efetive a sua dimensão colaborativa.

Preservação digital sistêmica

Após realizada a preparação dos documentos para a coleta, as coleções são transferidas para o acervo do Memorial Digital da Pandemia de COVID-19. Nesta etapa, tem início o trabalho de catalogação dos documentos recebidos, seguindo parâmetros respaldados por diretrizes internacionais para o estabelecimento de um Repositório Digital Confiável de Arquivos (RDC-Arq). Um repositório é um ambiente que garante o armazenamento e o gerenciamento de objetos digitais. Desde da década de 1990, segundo o CONARQ, especialistas vêm trabalhando para construir um padrão técnico de qualidade para repositórios pautado por normas técnicas globalmente construídas: estes são os repositórios Digital Confiável de Arquivos.  

Os documentos digitais recebidos pelo Memorial ingressam em um fluxo de preservação sistêmica rigoroso, envolvendo o uso de softwares de ponta e de código aberto (como o Archivematica e o Tainacan) que foram articulados em soluções de integração inéditas. O objetivo aqui é assegurar que as coleções de memórias da pandemia sejam preservadas para a posteridade, assegurando a sua autenticidade e sem deixar de lado as informações contextuais que permitem compreender a própria história desses registros.

Ampliação de acervo e recolhimento

Para além da preservação das coleções de memórias produzidas por comunidades durante a pandemia, a metodologia do Memorial Digital da Pandemia de COVID-19 contempla o desenvolvimento de uma infraestrutura apta a receber, de forma contínua, novos conjuntos documentais em seu programa de preservação digital sistêmica. É o caso de colaborações realizadas por meio de chamada aberta integrada ao Portal, no modelo de crowdsourcing, que permite a construção colaborativa do acervo com a participação voluntária de cidadãs e cidadãos que desejam preservar suas memórias da pandemia. A adoção dessa estratégia permite que o acervo se construa de forma democrática e representativa, mobilizando de forma proativa as potencialidades do meio digital. Além disso, assegura a diversidade documental que abrange desde testemunhos orais até registros audiovisuais, produzidos em diferentes momentos, uma vez que o recebimento ocorre em fluxo contínuo.

O Memorial Digital da Pandemia de COVID-19 também considera a possibilidade de preservar outros conjuntos documentais, compostos por documentos nato-digitais, dados e estatísticas produzidos por diferentes órgãos do Estado brasileiro e por organizações da sociedade civil, cuja preservação esteja em risco e/ou cujo acesso se encontre prejudicado em razão da dispersão e da ausência de tratamento arquivístico adequado. 

A nossa metodologia, assim, envolve a oferta de condições de preservação digital sistêmica para conjuntos documentais de interesse público, de modo a assegurar sua consulta pela  para pela sociedade, afirmando a responsabilidade compartilhada de preservação de documentos que testemunham experiências da pandemia.

Disponibilização ao público

Com as coleções devidamente tratadas e preservadas, inicia-se a última etapa para a realização do Memorial Digital da Pandemia de COVID-19: a disponibilização dos documentos neste Portal. Aqui, cada coleção possui uma página especial, construída com participação ativa de seus criadores — os personagens principais do Memorial — e dedicada à expressão de suas identidades. O acesso aos documentos, por sua vez, acontece a partir da  customização do Tainacan, uma plataforma brasileira de código aberto. Desta maneira, o Portal se alinha aos princípios de soberania digital e sustentabilidade, além de priorizar a experiência dos usuários.

Além disso, nosso Portal Digital dispõe de um mecanismo de busca que permite ao usuário localizar, de forma integrada, documentos provenientes de diferentes coleções, possibilitando a identificação de pontos de contato entre diferentes tipos de coleções e documentos, configurando um Memorial diverso e coeso. O acesso e a difusão do acervo do Memorial Digital da Pandemia de COVID-19 completam, assim, seu ciclo, materializando uma metodologia que parte das memórias das pessoas e, então, torna possível a preservação e a disponibilização dessas memórias, contribuindo com a consolidação da cidadania plena em nosso país.

Hoje, o Memorial Digital da Pandemia de COVID-19 é uma realidade, e a sua metodologia pode servir de inspiração para outros arquivos e memoriais pelo mundo, sobretudo diante dos desafios impostos pela transformação digital, especialmente no que se refere à integração de informações de forma participativa e sustentável.

Diferente dos produtos arquivísticos de estruturas tradicionais de arquivamento, as memórias do período pandêmico, alvos da nossa iniciativa, manifestaram-se de forma espontânea e comunitária, pulverizadas em redes sociais, plataformas proprietárias e serviços de armazenamento diversos. No intuito de consolidar um arquivo que preserve e ofereça acesso público aos diversos registros de um momento traumático, o Memorial adota o compromisso de prover condições infraestruturais para a preservação sistêmica desse conjunto documental a longo prazo, assim como de oferecer soluções de acessibilidade, reprodutividade, constante ampliação do fundo e difusão, tornando disponível aos cidadãos este patrimônio memorial de grande valor universal.