O lançamento do Memorial Digital da Pandemia de COVID-19, realizado no contexto do Dia Mundial da Saúde de 2026, dialoga com o tema global “Juntos pela ciência”, que destaca o papel da colaboração científica e da produção de evidências na proteção da saúde das populações. Para a equipe de desenvolvedores do projeto, a memória da pandemia não deve ser limitada ao registro do passado; ela precisa ser afirmada como um ativo científico e social estratégico para compreender crises sanitárias, orientar respostas em saúde pública e fortalecer a capacidade de preparação diante de futuras emergências.
Nesse contexto, o Memorial Digital oferece um acervo valioso para futuras pesquisas, estimulando a criação e consolidação de uma política que conecta experiência, evidência e ação, ampliando o papel da memória no campo da saúde coletiva. Seu conjunto documental permite investigar, sob diferentes perspectivas, os impactos sociais, culturais e sanitários da pandemia no Brasil, articulando contribuições tanto das ciências humanas quanto das ciências da saúde.
O professor Thiago Nicodemo, coordenador do Centro de Humanidades Digitais (CHD) da Unicamp, destaca que, para historiadores e pesquisadores das humanidades, o grande valor está na disponibilidade dessas fontes plurais e regionais, permitindo análises profundas sobre desigualdades sociais, luto coletivo e ressignificações da memória pós-pandemia, algo impossível com dados oficiais isolados.
Para Nicodemo, o avanço da comunicação por meio de mídias digitais, como e-mails, aplicativos de mensagens instantâneas e redes sociais, gera um paradoxo perigoso para a memória:
“Quanto mais a sociedade opera por meio de interface digital, mais a gente esquece as coisas. Maior a necessidade da sociedade se ater à memória. Então a memória, apesar de ficar mais difícil, ela fica mais necessária, mas não é uma necessidade que a gente da academia acha, é uma necessidade que as pessoas sentem, porque as pessoas têm necessidade de identidade.”
Destaca-se também a diversidade de fontes que compõem o acervo do Memorial Digital, que expressa de forma concreta o compromisso com a equidade e com a valorização de múltiplas realidades sociais – princípios centrais da missão da OPAS de promover a saúde para todos e reduzir as iniquidades em saúde. Até o momento desta publicação, o acervo reúne fotografias do cotidiano urbano carioca durante a crise sanitária, relatos de redes sociais sobre o impacto do ensino remoto nas comunidades escolares e dezenas de depoimentos de líderes, enfermeiros, estudantes, professores, idosos e jovens de oito povos indígenas do Amapá, ampliando a visibilidade de grupos historicamente sub-representados na produção de conhecimento.
Para Ian Marino, professor da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), que coordena a frente de curadoria e arquivamento, o diferencial do Memorial Digital é o fato de que ele é feito de baixo para cima: “o Memorial é como uma porta de entrada para registros produzidos de forma descentralizada pelas próprias pessoas, oferecendo infraestrutura para a preservação desse patrimônio”. Assim, nos próximos meses, esse acervo vai seguir crescendo, incorporando novas coleções e registros de experiências de uma ampla variedade de regiões e grupos sociais pelo Brasil.
A partir da perspectiva da saúde coletiva, esse conjunto de registros constitui uma base estratégica para a produção de conhecimento e para o fortalecimento das respostas em saúde pública. Essa base multidisciplinar orienta o desenvolvimento do Memorial, ao integrar diferentes áreas do conhecimento na geração de evidências para o fortalecimento da saúde pública.
João Paulo Souza, Diretor da BIREME, destaca que, além de apoiar a produção científica, o Memorial Digital também se configura como um espaço de mediação social da saúde e de fortalecimento da competência cultural nas práticas de saúde pública. Ao reunir narrativas diversas sobre a pandemia – de comunidades indígenas, periferias urbanas, redes escolares e grupos etários distintos –, o portal evidencia como fatores sociais, econômicos, territoriais e culturais influenciam profundamente a experiência do adoecimento e do cuidado. Esse conjunto de registros contribui ainda para a formação de contexto: ao situar os eventos da pandemia em seus cenários locais e regionais específicos, o acervo permite que pesquisadores e formuladores de políticas compreendam não apenas o que aconteceu, mas em que condições e para quem. Nesse sentido, o Memorial reconhece e valoriza a evidência experiencial – ou evidência vivida –, produzida por aqueles que enfrentaram a crise na pele, como uma fonte legítima e insubstituível de conhecimento em saúde. “Essa abordagem dialoga com a tradição da saúde coletiva, que compreende a saúde como resultado de múltiplos determinantes e reconhece a importância das experiências vividas na formulação de políticas públicas mais equitativas.”
Para Silvia de Valentin, administradora da BIREME que esteve à frente das negociações iniciais para a formalização do projeto, “foi possível verificar, ao longo da jornada de desenvolvimento do projeto do Memorial Digital, o fortalecimento do seu propósito e missão direcionados igualmente para responder às necessidades da área da história e da saúde coletiva, posicionando a BIREME e apoiadores como atores relevantes para essa realização”, considera.
Uma das premissas do Memorial Digital considera que acervos organizados ao longo do tempo permitem compreender melhor a dinâmica da experiência humana com as doenças, seus contextos e os impactos sobre diferentes populações, contribuindo para análises mais rápidas e qualificadas em situações de crise. A bibliotecária Juliana Sousa, ponto focal do projeto da BIREME, reforça essa abordagem ao destacar que: “Práticas de gestão da informação contribuem para estruturar, preservar e atribuir sentido aos registros da pandemia, transformando dados e documentos em conhecimento acessível e preservado para as futuras gerações.”
Para a pesquisadora Josiane Roza de Oliveira, responsável pela coleta e curadoria das coleções no projeto, iniciativas como essa aproximam-se do papel historicamente desempenhado por museus e coleções científicas na interface entre ciência e sociedade. “Exposições e acervos de saúde e higiene têm sido utilizados como ferramentas de comunicação em saúde, traduzindo conhecimentos técnicos para o público e orientando comportamentos individuais e coletivos”, ressaltou. No ambiente digital, essa função se amplia, ao possibilitar o acesso aberto, a circulação de informações de forma qualificada e o enfrentamento de desinformação em larga escala.
A articulação entre memória e saúde pública torna-se ainda mais relevante quando se considera o papel das experiências passadas na preparação para futuras emergências. Ao preservar evidências, relatos e lições aprendidas, o Memorial contribui para que gestores, pesquisadores e profissionais de saúde possam analisar criticamente as respostas adotadas durante a pandemia, identificando desafios, boas práticas e lacunas que precisam ser enfrentadas.


