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O lançamento do Memorial Digital da Pandemia de COVID-19, realizado no contexto do Dia Mundial da Saúde de 2026, dialoga com o tema global “Juntos pela ciência”, que destaca o papel da colaboração científica e da produção de evidências na proteção da saúde das populações. Para a equipe de desenvolvedores do projeto, a memória da pandemia não deve ser limitada ao registro do passado; ela precisa ser afirmada como um ativo científico e social estratégico para compreender crises sanitárias, orientar respostas em saúde pública e fortalecer a capacidade de preparação diante de futuras emergências.

Nesse contexto, o Memorial Digital oferece um acervo valioso para futuras pesquisas, estimulando a criação e consolidação de uma política que conecta experiência, evidência e ação, ampliando o papel da memória no campo da saúde coletiva. Seu conjunto documental permite investigar, sob diferentes perspectivas, os impactos sociais, culturais e sanitários da pandemia no Brasil, articulando contribuições tanto das ciências humanas quanto das ciências da saúde.

Foto retratando a rotina da Unidade de Tratamento Intensivo (UTI) do Hospital Universitário Clementino Fraga, da UFRJ, na Ilha do Fundão, Rio de Janeiro. Na imagem, vemos profissional da saúde realizando registros em meio ao trabalho junto a pacientes. Fotografia editada (pb e tamanho) para publicação no livro "Vidas importam - Memória visual da pandemia COVID-19 no Rio de Janeiro" (Editora iVentura, 2021).
Item “UTI no contexto da pandemia”, da Coleção Vidas importam, fotografias de Erbs Jr.

O professor Thiago Nicodemo, coordenador do Centro de Humanidades Digitais (CHD) da Unicamp, destaca que, para historiadores e pesquisadores das humanidades, o grande valor está na disponibilidade dessas fontes plurais e regionais, permitindo análises profundas sobre desigualdades sociais, luto coletivo e ressignificações da memória pós-pandemia, algo impossível com dados oficiais isolados.

Para Nicodemo, o avanço da comunicação por meio de mídias digitais, como e-mails, aplicativos de mensagens instantâneas e redes sociais, gera um paradoxo perigoso para a memória:

“Quanto mais a sociedade opera por meio de interface digital, mais a gente esquece as coisas. Maior a necessidade da sociedade se ater à memória. Então a memória, apesar de ficar mais difícil, ela fica mais necessária, mas não é uma necessidade que a gente da academia acha, é uma necessidade que as pessoas sentem, porque as pessoas têm necessidade de identidade.”

Destaca-se também a diversidade de fontes que compõem o acervo do Memorial Digital, que expressa de forma concreta o compromisso com a equidade e com a valorização de múltiplas realidades sociais – princípios centrais da missão da OPAS de promover a saúde para todos e reduzir as iniquidades em saúde. Até o momento desta publicação, o acervo reúne fotografias do cotidiano urbano carioca durante a crise sanitária, relatos de redes sociais sobre o impacto do ensino remoto nas comunidades escolares e dezenas de depoimentos de líderes, enfermeiros, estudantes, professores, idosos e jovens de oito povos indígenas do Amapá, ampliando a visibilidade de grupos historicamente sub-representados na produção de conhecimento.

Para Ian Marino, professor da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), que coordena a frente de curadoria e arquivamento, o diferencial do Memorial Digital é o fato de que ele é feito de baixo para cima: “o Memorial é como uma porta de entrada para registros produzidos de forma descentralizada pelas próprias pessoas, oferecendo infraestrutura para a preservação desse patrimônio”. Assim, nos próximos meses, esse acervo vai seguir crescendo, incorporando novas coleções e registros de experiências de uma ampla variedade de regiões e grupos sociais pelo Brasil.

A partir da perspectiva da saúde coletiva, esse conjunto de registros constitui uma base estratégica para a produção de conhecimento e para o fortalecimento das respostas em saúde pública. Essa base multidisciplinar orienta o desenvolvimento do Memorial, ao integrar diferentes áreas do conhecimento na geração de evidências para o fortalecimento da saúde pública.

João Paulo Souza, Diretor da BIREME, destaca que, além de apoiar a produção científica, o Memorial Digital também se configura como um espaço de mediação social da saúde e de fortalecimento da competência cultural nas práticas de saúde pública. Ao reunir narrativas diversas sobre a pandemia – de comunidades indígenas, periferias urbanas, redes escolares e grupos etários distintos –, o portal evidencia como fatores sociais, econômicos, territoriais e culturais influenciam profundamente a experiência do adoecimento e do cuidado. Esse conjunto de registros contribui ainda para a formação de contexto: ao situar os eventos da pandemia em seus cenários locais e regionais específicos, o acervo permite que pesquisadores e formuladores de políticas compreendam não apenas o que aconteceu, mas em que condições e para quem. Nesse sentido, o Memorial reconhece e valoriza a evidência experiencial – ou evidência vivida –, produzida por aqueles que enfrentaram a crise na pele, como uma fonte legítima e insubstituível de conhecimento em saúde. “Essa abordagem dialoga com a tradição da saúde coletiva, que compreende a saúde como resultado de múltiplos determinantes e reconhece a importância das experiências vividas na formulação de políticas públicas mais equitativas.”

Para Silvia de Valentin, administradora da BIREME que esteve à frente das negociações iniciais para a formalização do projeto, “foi possível verificar, ao longo da jornada de desenvolvimento do projeto do Memorial Digital, o fortalecimento do seu propósito e missão direcionados igualmente para responder às necessidades da área da história e da saúde coletiva, posicionando a BIREME e apoiadores como atores relevantes para essa realização”, considera.

Uma das premissas do Memorial Digital considera que acervos organizados ao longo do tempo permitem compreender melhor a dinâmica da experiência humana com as doenças, seus contextos e os impactos sobre diferentes populações, contribuindo para análises mais rápidas e qualificadas em situações de crise. A bibliotecária Juliana Sousa, ponto focal do projeto da BIREME, reforça essa abordagem ao destacar que: “Práticas de gestão da informação contribuem para estruturar, preservar e atribuir sentido aos registros da pandemia, transformando dados e documentos em conhecimento acessível e preservado para as futuras gerações.”

Captura de tela de publicação compartilhada no Instagram do projeto "Varal de Emoções" contendo relato sobre a rotina em quarentena na Rocinha, comparando a realidade dos moradores com as pessoas confinadas no programa Big Brother Brasil (BBB). O texto relata a dificuldade dos moradores das favelas em fazer parte da quarentena devido à realidade econômica e estrutural. Contém imagem de vista da janela para outras casas da Rocinha.
Item “Relato sobre a realidade da quarentena dentro da favela”, da Coleção Varal de Emoções

Para a pesquisadora Josiane Roza de Oliveira, responsável pela coleta e curadoria das coleções no projeto, iniciativas como essa aproximam-se do papel historicamente desempenhado por museus e coleções científicas na interface entre ciência e sociedade. “Exposições e acervos de saúde e higiene têm sido utilizados como ferramentas de comunicação em saúde, traduzindo conhecimentos técnicos para o público e orientando comportamentos individuais e coletivos”, ressaltou. No ambiente digital, essa função se amplia, ao possibilitar o acesso aberto, a circulação de informações de forma qualificada e o enfrentamento de desinformação em larga escala.

A articulação entre memória e saúde pública torna-se ainda mais relevante quando se considera o papel das experiências passadas na preparação para futuras emergências. Ao preservar evidências, relatos e lições aprendidas, o Memorial contribui para que gestores, pesquisadores e profissionais de saúde possam analisar criticamente as respostas adotadas durante a pandemia, identificando desafios, boas práticas e lacunas que precisam ser enfrentadas.

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